sexta-feira, 19 de outubro de 2012

UMA ESCOLA PARA NEGROS.


A única escola exclusiva para crianças pretas e pardas que existiu no Brasil funcionou na Rua da Alfândega, de 1853 a 1873, no Rio de Janeiro. Não há registros de outros colégios que privilegiaram o estudo dos negros no país. Diferentemente dos Estados Unidos, onde a população negra criou espaços próprios, aqui a exceção pode estar na escola de Pretextato dos Passos e Silva. Era em uma casinha pequena, teve cerca de 15 alunos de famílias de origem humilde: a maioria dos pais não tinha sobrenome ou assinatura própria. O nome dos alunos, até hoje, é um mistério, bem como o paradeiro deles.

Tudo o que se sabe da escola termina por aí. A historiadora Adriana Maria Paulo da Silva, que estudou a existência desse colégio, gostaria de ter a chance de conhecer mais sobre Pre­­textato, o que poderia responder a tantas indagações, mas até mesmo o nome deste homem é uma incógnita. “A origem da palavra Pretextato é de alguém que protesta. Ele poderia ter usado o nome com este objetivo”, diz Adriana, que é professora do departamento de Métodos e Técnicas de Ensino da Univer­sidade Federal de Pernambuco. Ela se deparou com a existência de Pretextato e de sua escola em documentos do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro durante sua dissertação de mestrado.

As três maneiras de descobrir coisas sobre os habitantes do tempo do Império são a partir de inventários da época, de documentos de alguém que abriu um processo judicial ou foi processado. Quem não passava por um desses trâmites desapareceu na história – é a explicação que se tem para o nome das crianças negras e pardas. Pretextato abriu um processo solicitando ao então inspetor-geral da Instrução Primária e Secundária da Corte, Eusébio de Queirós, algumas concessões para a continuidade do funcionamento da escola. Ele pediu ainda a dispensa das provas de capacidade (um exame oral e escrito), que era uma exigência para o exercício do magistério. “Para escapar da prova, ele recorreu ao processo. E não conseguiu apenas a dispensa, mas a chance de continuar com a escola aberta”, explica Adriana. Pretextato deveria fazer os exames na frente do que seria hoje o então ministro da educação, porém, como era muito tímido, se defendeu dizendo que isso o impedia de fazer os testes.

Ele declarou nos documentos ser um homem preto. Não se sabe como Pretextato conseguiu ter formação educacional para ensinar os alunos, mas, no processo da escola, dois pais o defendiam dizendo que era um bom professor. No processo, Pretex­tato argumentou ainda que era importante a escola continuar funcionando porque havia muito racismo nas escolas da corte, nas quais os pretos e pardos eram impedidos de frequentar ou eram emocionalmente coagidos. Aliás, era proibido aos escravos frequentar a escola, apenas negros alforriados tinham essa prerrogativa e, mesmo assim, de difícil conquista. A silenciosa autorização de Eusébio, apesar deste cenário, é outra questão inexplicável sobre a existência e permanência da escola de negros do Rio.

O colégio funcionou até 1873, data em que Pretextato foi despejado da casa onde lecionava por dever dois meses de aluguel à Santa Casa de Misericórdia. “Há registros de que os pais pagavam uma mensalidade para a escola. Mas deveria ser um valor irrisório”, diz Adriana. Na escola, os alunos aprendiam o básico: ler, escrever, saber as quatro operações matemáticas e um pouco de religião.

(Fonte: Facebook/Solange Maria)

9 comentários:

Bloguinho da Zizi disse...

Muito interessante!
Gostei tanto que postei no facebook.
Teu blog precisa ser mais conhecido pois vc traz informações e curiosidades preciosas.
Beijinhos

micael disse...

Interessante documento sobre a história do ensino no Brasil no século XIX.
Seria interessante saber-se como se ensinava e o que se ensinava nas ex-colónias portuguesas nos século XIX e XX. Como se condicionou, dessa forma, o desenvolvimento dos povos das ex-colónias portuguesas.
Em Angola, nos anos 40 do século passado, aprendi a ler e a escrever numa escola primária onde brancos, pretos e mestiços se misturavam, é certo. Mas as matérias eram só sobre Portugal. Tinhamos que saber os nomes dos rios de Portugal e dos seus afluentes, das serras de Portugal, das linhas de caminho de ferro e das suas estações... enfim tudo sobre Portugal e nada sobre Angola!..
Um abraço e uma boa semana.

R. R. Barcellos disse...

Resgate de uma página perdida, entre tantas outras meio apagadas que formam um mosaico pouco nítido (e talvez por isso mesmo, valioso) da história da Educação neste país sem memória. Parabéns.

Abraços.

Antonio Lopes disse...

Muito interessante. Realmente,sempre no Brasil houveram abnegados que se desdobraram para deixar as suas marcas. Concordo que seu blog precisa ser mais conhecido..Abraços

Luis disse...

Querida Amiga Silvana,
É sempre agradável visita-la pois se vai aprendendo sobre os diversos temas que vai apresentando. Esta escola é um belo exemplo disso mesmo.Julgo poder afirmar com verdade que os missionários foram os veículos da escolaridade dos povos que os portugueses foram descobrindo pelo mundo fora e mais tarde pelas autoridades oficiais. O ensino versava a totalidade dos territórios que faziam parte de Portugal e não só do Portugal continental conforme Micael disse.
No ensino, pelo menos há 80 anos, não havia racismo, eram todos iguais e tratados de igual modo.
Beijinhos amigos.

flor de cristal disse...

Querida Silvana que pena que as coisas no Brasil seja assim tão difício, não é? A história correndo o risco de se perder e podemos ficar sem memoria, me doí escrever isso... :(

Mas não posso tbm ser tão pesimista assim pq tem o trabalho dos pesquisadores para nos salvar do esquecimento da nossa história que é tão rica e bonita. Por isso parabenizo seu trabalho e garanto voltar mais vezes por aqui para te ler, ok?

Beijos carinhosos!

flor de cristal

Neurimar disse...

Estava sentindo falta das suas postagens. Acho seu blog muito rico em conteúdos.

xunandinha disse...

Gosto muito de passar de vez em quando no seu interessante cantinho um abraço

Silvanna Nunez disse...

Muito grata por suas palavras