quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A LAVAGEM DAS ESCADARIAS DO NOSSO SENHOR DO BONFIM - BAHIA.

A Lavagem das Escadarias do Bonfim (foto 4) é considerada a segunda maior manifestação popular da Bahia, perdendo apenas para o carnaval.
A capela do Senhor do Bonfim ( foto 1) foi inaugurada no ano de 1745. Naquela época, a  igreja era lavada pelos escravos  e, aos poucos, esse ato foi  se popularizando e  transformando-se numa festa. O culto ao Senhor do Bonfim então, começa a assumir uma extraordinária proporção em Salvador.
A festa teria se originado do culto a Oxalá
( o culto a Oxalá é celebrado em Ifé e tem como características a lavagem de seus objetos sagrados com água recolhida em potes num rio consagrado ao orixá. Essa água é levada ao templo pelos fiéis em procissão), cerimônia esta realizada fora da cidade as escondidas, devido a perseguições por parte das autoridades da época.
Com o retorno dos Voluntários da Pátria
- recrutas , em sua maioria negros e mestiços,  que foram lutar na Guerra do Paraguai - , este ritual teria sido juntado ao ato da lavagem, por gratidão a estes negros e mestiços , dando notoriedade  no espaço urbano, ao culto a Oxalá.
Existe também outra versão que nos conta que a tradição da lavagem teria assumido tais características  devido a promessa  de um soldado que lutou na Guerra do Paraguai.
A festa do Senhor do Bonfim teve seu começo no mês de janeiro. Iniciava-se no segundo domingo depois  do dia dos Santos Reis: na quinta anterior ao início da novena a lavagem do santuário era feita. Em meados do século XIX a festa assumiu características diferentes, tendo uma maior participação dos negros  que acabaram implantando os seus costumes.
O ritual que se repete durante todos esses anos, tem seu começo às 10 horas, quando os participantes se concentram em frente à igreja  da Conceição da Praia para dar início a uma caminhada de 8 km até a igreja do Nosso Senhor do Bonfim.
O cortejo é comandado por baianas em trajes típicos  que carregam vasos com água de cheiro. Atrás delas vem o bloco "Os Filhos de Ghandi" (foto 2) e uma multidão de fiéis. Todos se vestem de branco, que é a cor de Oxalá, o deus  sincretizado como Senhor do Bonfim. As  baianas  molham com água de cheiro os degraus da escadaria, onde também depositam flores, enquanto todos cantam o hino do Senhor do Bonfim.
Para  o antropólogo Câmara Cascudo,  um dos mais produtivos estudiosos da cultura brasileira, também na África havia cerimônias de lavagem de imagens ou símbolos santificados.
Após a festa, muitas pessoas se dirigem as barraquinhas espalhadas no entorno para experimentar o típico acarajé baiano (foto 5). É possível comprar as tradicionais tirinhas  do Senhor do Bonfim (foto 3), que tem exatamente o mesmo comprimento  do braço da imagem que está no interior da igreja.
Diz a lenda que ao amarrá-la no pulso, você deve fazer três pedidos ( para cada pedido, um nó), que serão realizados quando a fita cair.
...................................
- Hino do Senhor do Bonfim -

Glória a ti neste dia de Glória
Glória a ti redentor que há cem anos
Nossos pais conduziste à vitória
Pelos mares e campos baianos.
Dessa sagrada colina
Mansão da misericórdia
Dai-nos a Graça Divina
Da Justiça e da Concórdia
Glória a ti nessa altura sagrada
És o eterno farol, és o guia
És, Senhor, sentinela avançada
És a guarda imortal da Bahia.
Dessa sagrada colina
Mansão da Misericórdia
Dai-nos a Graça Divina
Da Justiça e da Concórdia
Aos teus pés que nos deste o Direito
Aos teus pés que nos deste a Verdade
Trata e exulta num férvido preito
A alma em festa da nossa cidade.
Dessa sagrada colina
Mansão da Misericórdia
Dai-nos a Graça Divina
Da Justiça e da Concórdia.

O Hino do Senhor do Bonfim (João Antonio Wanderlei - Peiton de Vilar) foi divulgado nacionalmente a partir de sua inclusão no disco Tropicália, considerado um dos manifestos da estética do Movimento Tropicalista do final dos anos 1960.
Com arranjo e regência de Rogério Duprat, o hino é interpretado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes, fechando o disco de forma apoteótica. 


38 comentários:

Pérola disse...

Bom dia.
Interesante esse texto,sinceramente eu desconhecia.
Vivendo e aprendendo sempre.
Parabéns.
Bjs

Rui da Bica disse...

Conhecia a estória da fitinha atada no pulso, com nós e respectivos desejos, mas não sabia da sua origem !

Silvana: será que podemos ou não considerar a cidade de S. Salvador da Bahia, como a mais portuguesa, do Brasil ?...
Bjs.
.

Elizabeth disse...

Bom dia Silvana,
Passei aqui, beijo.

Pelos caminhos da vida. disse...

Voltar aqui é aprender mais cultura.

Bom dia amiga!

beijooo.

Felina Mulher disse...

Bom dia Sil....eu desconhecia a segunda tradição que lavagem teria assumido tais características devido a promessa de um soldado que lutou na Guerra do Paraguai.
Obrigada pela partilha.

Beijos....linda quarta!

mulherpolvo disse...

Obrigada por trazer mais um assunto bacana!! Eu nunca fui à Salvador, mas sei que todos gostam muito desta festa por lá!!

analu disse...

silvana! oi vivendo e aprendendo, já estive em salvador e na igreja, mais não sabia a história. Adorei tua visita em meu blog, já estas na lista para concorrer ao trabalho que eu faço. Beijocas Analú

Mel Redi disse...

BOM DIA, SILVANA! Esta Brasilidade é Encantadora! Mistura das raças, das culturas, dos credos, dos corações.. Existe outro País como o nosso? É na diversidade cultural que escrevemos nossa História Maravilhosa! Grande e fraterno abraço, Maria Emília

Elaine Barnes disse...

Nossa, até as fotos sumiram? Putz e com esse roubo de blogs que está tendo, a gente morre de medo né?! Por isso é sempre válido se comunicar,fez bem. Montão de abraços

angela disse...

Aprendi algumas coisas hoje, mas a musica tocou inteirinha na minha cabeça...rs
beijos

Renata Boechat disse...

A fitinha do Senhor do Bonfim é um dos mais fortes patrimonios da nossa cultura! Ótimo texto, desconhecia muitos detalhes...valeu!

lis disse...

Oi Silvana
É uma festa tradicional essa da lavagem das escadarias da igreja , em Salvador.E o interessante é a mistura dos cultos religiosos (Oxalá e Senhor do Bonfim),com a Igreja católica.Isso é saudável e a Banhia é uma linda sincronia de credos, etnias e cores.
Parabéns pela boa lembrança .
abraços

Marjory disse...

Olá querida Silvana!
Que interessate esse evento! Mas que trabalheira lavar tantos degrais...rrsss Nossa cultura é rica demais!!!
Adorei.
Mil beijokas!!

Denise Guerra disse...

Oi Silvana, não sei se vc viu minha resposta à sua pergunta sobre Madureira. Eu morei em Osvaldo Cruz, e agora moro em Piedade, mas, não saio de Madureira, passo lá quase todos os dias da semana. Já dei aulas para crianças na quadra da Portela e do Império. Fui aluna da 1ª turma de Dança de Salão do Império Serrano(1995) e estou sempre dançando nas quadras das duas escolas pois, aqui tem um público legal de Dança de Salão. Hoje mesmo estarei por lá, e adoraria estar comemorando com a minha Portela, mas, não sei se ela chegará a ser campeã este ano. Espero que vc tenha resolvido seus problemas com o blogger e seu link continua nos meus blogs ok?! Hoje postei uma história de uma cidade do estado do Rio e de um bar interessante deste lugar chamado Varre e Sai (bar do sapato), passe no Ecos da Cultura Popular pra ver. Bjs!

Denise Guerra disse...

Ah, no dia de Yemanjá eu fiz uma postagem sobre a lavagem das escadarias do Bonfim. Nosso país é cheio de magias! Gostei do hino que vc colocou aqui e eu não conhecia. Ficou ótima sua postagem. Bjs!

Zezinha Sousa disse...

Olá, Silvana, é um prazer receber sua visita, também sou grande admiradora da cultura popular, e o seu espaço é um prato cheio. Um forte abrço.

Eduardo Aleixo disse...

Vim agradecer a sua visita e ler a sua postagem, de que gostei. Obrigado pela partilha desta tão curiosa e bonita tradição. Beijinho.

Amapola disse...

Boa tarde, Silvana.
Adorei! Essa matéria me emociona bastante, porque desde criança, ouvia meu pai contar essa história, detalhe por detalhe, sendo que no final, tudo se misturava com a emoção dele... com a saudade dele... somando-se com a emoção nossa.
Um grande abraço.

Baila sem peso disse...

E num Branco tão branquinho
ficou um mundo de cor sem fim
Oxalá tudo fosse lindo assim!

Meu beijo na saudação, fica aqui no fim :)

Sofia Carvalho disse...

Silavana,gostei deste teu documentário. aprendi mais um pouco de um país que adoraria visitar um dia;)
Grande foto-reportagem!

Norma Villares disse...

Olá Amiga Silvana,
Estou aqui para agradecer pela visita e lindas palavras.
E encontro mais palavras bonitas sobre a Bahia. Fico feliz em ler um texto tão bonito e emocionante. Pribcipalmente ler a letra desse Hino tão querido pelo baianos.
Deus te abençoe com muita luz!
Eternamente agradecida!
Um grande abraço

Betty Mello disse...

Minha querida, adoro este seu cantinho tão rico em cultura, conteúdo, carinho, imagens...enfim tão repleto de Silvana...Nem sempre consigo entrar e comentar...mistérios internáuticos...Quando puder dá uma passadinho nos meus cantinhos - estou curtinho o Ano do Tigre (carioca, filha de baiano e bisneta de chinês dá nisso !!!)Bjs carinhosos, Betty

Artes da Marga disse...

Oi Silvana!
Esses seus textos são fascinantes e enriquecedores. Aprendo muito aqui. O povo baiano tb tem muito preparo físico para fazer essa caminhada todo ano. Essa é uma tradição que a gente vê pela TV e admira.
Bj
Margarida

Vicktor disse...

Querida Silvana

Cada texto que publicas, sempre do maior interesse para quem, como eu, muito valoriza a cultura popular brasileira, traz-me sempre imensas memórias.

Em primeiro lugar deixar bem claro quanto gostei deste saber.

Depois... as memórias

Além dos citados Gilberto, Caetano e Gal que conheci pessoalmente em Portugal continuam vivos no meu imaginário musical "Os Mutantes" (dito com aquele sotaque brasileiro) a acompanharem o Edu Lobo...

Quando falas de antropólogos sempre me vem à memória Egon Schade que há mais de 40 anos ouvi dissertar sobre "os índios brasileiros"....

"Memories"... Muito reconhecido te fico.

Beijinhos.

manuel marques disse...

Por aqui aprende-se todos os dias.

Beijos.

Mateus Luciano disse...

o Brasil é lindo sagrado e outras milongas mais,
sua matéria é uma delicia e com alto poder de informação,
bom estarei sempre que possível dando um alô aqui pois me pareceu muito agradável e colorido seu blog,agora vou dar uma passada nos seus outros blogs...

Em@ disse...

Silvana:
Conforme lhe disse no comentário /resposta ao seu,no meu blog(ue), não a bloqueei como minha seguidora até porque nunca bloqueei ninguém,nem tive motivos para isso.
Fui informar-me e a prova está aqui:

......
Em@ Seguidores
Regressar a: Painel de Controlo

Os seguidores são pessoas interessadas no seu blogue. Obter mais informações

Todos os seguidores bloqueados (0)

Não bloqueou quaisquer seguidores
....
O problema deve estarno seu blog(ue).
Um aboa semana para si e querendo pode voltar a ser minha seguidora :))

Amapola disse...

Boa noite, Silvana.

Eu também assisti o carnaval todo, pela TV.
Sobre aquele negócio de defeito nos nossos links, eu acho que devemos reclamar no Google. Pode ser brincadeira de algum Hacker.

No meu caso, está difícil até para postar os comentários. Eu preciso repetir duas vezes, para que fique registrado.

Beijos.

comunicadoras disse...

Oi amiga. Gostei muito de saber a história da lavagem da escadaria do Senhor do Bom Fim. Já conhecia esta festa, mas não com tanto pormenor. As fitinhas essas, são um simbolo da Bahia até aqui em Portugal; quem vai aí, traz sempre um montão delas. Imagina que agora aqui em Fátima ( nossa Padroeira) já fazem dessas fitinhas com a imagem da Srª de Fátima para venderem aos peregrinos.É assim...as tradições vão-se espalhando e vão sendo adaptadas a outros países. É boa essa troca de costumes. Um beijinho e que sejas muito feliz. Voltarei qualquer dia.Dia 13 de Março vou ao Brasil, passar um mês em Guaratingutá- SP onde morei 14 anos; vou ver se consigo ir a Salvador, pois não conheço e sonho com isso há muito.Bjos
Emília

Dalva disse...

Olá, minha querida!

Estou de volta, morrendo de saudades
dos amigos!

Espero que o feriado tenha sido bom
para você!

Sempre é uma riqueza passar por aqui e aprender um pouco sobre nossa diversidade cultural!

Beijos!

Estrela disse...

Olá Silvana!
Apesar de não estar postando nada no momento,ainda gostaria de saber se tens um endereço para o qual eu possa enviar o livro que prometi.Envie o endereço para:maristela.b.morais@gmail.com
Continuo sua fã.
Bjus!

Estrela disse...

Olá Silvana!
Apesar de não estar postando nada no momento,ainda gostaria de saber se tens um endereço para o qual eu possa enviar o livro que prometi.Envie o endereço para:maristela.b.morais@gmail.com
Continuo sua fã.
Bjus!

Vitor Chuva disse...

Olá Silvana!

Aqui, não longe donde moro - mais exactamente no Porto - existe a igreja do Bonfim, que suponho terá servido de modelo ou de inspiração à construção da sua homónima no Brasil - igualmente com uma longa escadaria que conduz até à porta principal. Aqui ela é conhecida não só por igreja do Bomfim, mas também como da Boa Morte, por lá as pessoas irem rezar por aqueles que tinham sido condenados à forca.
A água, associada à lavagem do corpo e à purificação do espírito, aparece, curiosamente, ligada a diversas religiões - mantendo-se até aos nossos dias - como traço comum a pessoas com crenças "aparentemente" tão diferentes ...
Muito bonito e bem contado - como sempre.
Beijinhos.
Vitor

Regina Rozenbaum disse...

Eiii Amada
Bacanérrimo, prá variar, todas essa informações que vc nos brinda sempre! E aí? Já está tudo ok com o blog? Que história é essa de "roubo" de blog???? Se puder esclarecer prá gente....tô completamente por fora!!!!
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

Gilsa disse...

Olá, Silvana! Ao ler sua postagem, pintou um clima de nostalgia... Eu participei em 2001 dessa festa maravilhosa! A Bahia tem seus encantos místicos que inebriam a gente. Ao entrar na Igreja do Bonfim, fiz trêz pedidos e não é que todos se realizaram em 1 ano!!!
Minha única decepção foi porque eu achava que as escadas eram imensas...
Ah, fiquei na casa de uma baiana e até passe recebi, foi um dia de surpresas e beleza!
Um abraço e obrigada pela recordação!

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Passar por aqui, Sil, é de repente encontrar uma sala d'aula de porta aberta, e a professora lá, falando do que a gente mais gosta... Não há como seguir em frente. Paro mesmo, e ouço tudo!

bj

Daniel Savio disse...

É interessante as demonstrações populares, pois mesmo que tenham tantas origens, ninguém consegue provar 100 por cento de uma das possibilidades da sua origem...

Fique com Deus, menina Silvana.
Um abraço.

Jr Vilanova disse...

Um dia ainda estarei nessa festa! É um compromisso que assumi comigo mesmo! Lá e na festa de Iemanjá! Serão experiências ímpares em minha vida!
Lindo post.
Jr.