sábado, 31 de outubro de 2009

HISTÓRIAS DE TRANCOSO.


Tudo começou com o escritor português de nome Gonçalo Fernandes Trancoso
após publicar o livro "Contos e Histórias de Exemplo", em Portugal no

éculo XVI.Este livro foi editado pela primeira vez no ano de 1575, passou a ser uma
referência nos contos populares.
A expressão "histórias de Trancoso" é muito comum em Portugal e no Brasil,
passando a denominar todo conjunto de histórias populares transmitidas pela
tradição oral.

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QUEM TE MATOU ?

Um homem, certo dia, saiu da cidade andando a pé, e junto a uma porteira, longe de habitações, deu com uma caveira feia como só podem ser a morte e o pecado.

Levianamente, deu-lhe um pontapé e caçoou:

- Quem te matou, caveira?

Mas qual não foi o seu espanto, quando, com um estalar dos ossos muito brancos, lavados de chuva e estorricados ao sol, a caveira respondeu:

- Foi a língua.

O pavor o sacudiu com ímpeto. Saiu por ali afora numa doida carreira, e dentro de pouco tempo estava novamente na cidade. Na sua excitação, contou a toda gente o que lhe acontecera.

- Não pode ser - diziam.

- Foi. Juro. Eu vi. Eu ouvi. Junto a uma porteira.

- Uma caveira falando? Alucinação, meu amigo.

- Verdade.

Alguns acreditavam, outros não. A maioria, não. Mas a notícia correu a cidade, cercou-a, voou até o palácio do rei.

O rei mandou chamar o moço.

- Que história é essa?

O moço contou tudo, ainda se arrepiando de se lembrar do susto.

- Ela respondeu, juro, majestade.

O rei se desencostou do trono e, com um dedo em riste, sacudindo-o diante do nariz do moço, falou:

- Vou lá ver isso. Sou curioso. Mas veja lá, se for mentira sua, e você me fizer bancar o bobo, eu te mando pendurar na primeira árvore que encontrarmos.

- Foi verdade, majestade - murmurou o moço.

Aprestara, então, um grande cortejo. Ia adiante o rei no seu cavalo branco, ricamente ajaezado, com aperos de ouro e prata. E depois, os nobres, suntuosamente vestidos. E os soldados. Tudo aquilo fulgia ao sol. Bem adiante, caminhava o moço a pé, com as mãos amarradas. Tudo estacou junto à porteira. Parecia uma festa. Os que riam e caçoavam calaram-se ao ver a caveira, tão maligna parecia. Trêmulo, o moço perguntou:

- Quem te matou, caveira?

A caveira quieta estava e quieta ficou.

O moço pensou que talvez tivesse falado muito baixo. Em voz mais alta, mas insegura, interpelou novamente:

- Quem te matou, caveira?

E a caveira, quieta.

- Quem te matou, caveira? - gritava agora, com os olhos esbugalhados, saltadas as veias do pescoço, e um pavor infinito apertando-lhe o coração.

- Quem te matou, caveira? Quem te matou, caveira?

E a caveira muito branca, luzindo ao sol, em silêncio. O moço perdeu a cabeça, começou a dar-lhe pontapés, o golpe soava cavo, e ele ia atrás dela novamente, de um para outro lado, suando, rugindo.

- Quem te matou, caveira?

Apanharam-no, veio o carrasco no seu camisolão vermelho, fez o nó corrediço com dedos ágeis, e o moço ficou enforcado numa árvore à beira do caminho, enquanto a comitiva voltava, aparatosa mas sem animação, para a cidade.

Ficou tudo em silêncio, no campo. Não passava viva alma. Decorreram as horas quentes do dia, anoiteceu. Quando se adensaram as primeiras sombras, aconteceu uma coisa extraordinária. A caveira, que não parecia dotada de movimento, rolou um pouco sobre si mesma e veio, aos pulos. Pulou até chegar sob a árvore onde estava o enforcado. E ali, com o feio buraco das órbitas vazias virado para cima, perguntou:

- Eu não te falei que quem te matou foi a língua?




(In ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro; contos populares do Brasil)



23 comentários:

Anabela disse...

ahahahaahahaah!O maximo,é bem verdade que tal como dizemos por ca,"pela boca morra o peixe..."

Fatima disse...

Minha mãe sempre me conta essa história. Até hoje.
Ai, ai, ai!
Bjs.

Sandra Botelho disse...

to viciada no teu blog, sempre tenho que vir aqui absorver conhecimento. Bjos no coração!

Daniel Savio disse...

E no final das contas, foi mais um perdido pela lingua...

Fique com Deus, menina Silvana.
Um abraço.

Marcelo Mayer disse...

fantástico post!

Alexandre disse...

Cara Silvana, boa tarde!
Estou aqui para agradecer a sua visita e também o seu carinhoso comentário.
Um grande abraço.

PS. Estou indicando seu Blog para meus alunos e já imaginado uma atividade com as suas pesquisas.

Vanilda Fiuza disse...

Olá!!!
Visitando blogs cheguei até aqui e me encantei.
Parabéns pelo bom gosto som visual confortável muita leitura útil e gostoso de visitar.
Já estou te seguindo.
Se possível faça nos uma visitinha e deixe sua marquinha no blog da Bellinha .Será uma honra te receber.

www.talkisabella.blogspot.com
Um abraço.

alegria de viver disse...

Olá querida
Sempre a lingua nos trai, por isso devemos pensar bem antes de abrir a boca rsrsrsrs...
Lindo texto.
Com muito carinho BJS.

Luisa Moreira disse...

Devemos por vezes frear a língua.

Gosto baste de a ler.
Obrigada
Luisa

Marco Aurélio disse...

Silvana
Com chegou ao meu blog?
abraço

Heloísa disse...

Silvana,
Gostei muito. E o "fundo florestal" está muito bom. Parece que a gente está no campo, mesmo.
Obrigada por sua visita ao meu blog.

Céu Vieira disse...

Olá Silvana, boa noite!
Descobri o seu blog e gostei...
Gostei muito desta história... é verdade que temos de ter cuidado com a língua.
Devemos ser "...prontos para ouvir e tardios para falar", como diz a Biblia na carta de S. Tiago 1: 19
Se assim fizéssemos sempre, evitaríamos algumas situações desagradáveis. Mas... somos humanos, falíveis!...
Obrigada pela partilha.
Beijinho e bom fim de semana

Anônimo disse...

Olá, Silvana, fantásticas as histórias; belo trabalho de pesquisa. Grande abraço; voltarei sempre. Grata por sua visita ao meu blogg "Reminiscências" -Marilena Soneghet

Regina Fernandes disse...

Então Silvana, ela avisou e ele não escutou....

Bjs
Linda noite

Paulo Ferrari disse...

Gostei muito dos textos escolhidos bem como das poesias para crianças. Agradeço sua visita ao meu blog e espero contar com mais delas. O meu trabalho é de encontrar histórias que tragam revelações da alma e das relações humanas; o que a humanidade produziu que sirva de conhecimento universal. Minhas atualizações são semanais, mas pretendo aumentar esta frequência até janeiro.

Abraços,

Paulo Ferrari

In-Vestida disse...

Essa é boa!!! bjus e bom feriado.

Roberta Dumiense disse...

Oi, Silvana parabéns pelas postagens. Eu me senti em um tour na Floresta e mesnsagens.É sempre bom ter contato com a natureza!Agradeço sua visita no meu blog. Beijos, tenha um feriado maravilhoso.

Abraço expresso.

Anônimo disse...

Minha querida Silvana que maravilha! Fique radiante em ler as suas páginas. Obrigada por visitar o meu, o qual em relação ao seu está tentando engatinhar. Queria colocar uma mensasagem, um selinho, mas ainda não sei. Passei o tempo todo em uma bela "floresta." Parabéns!

Inês disse...

Por engano coloquei o comentário como anônimo. Desculpe.

▒▓█► JOTA ENE disse...

ººº
Gostei do cantinho...

Voltarei ....

Silvia disse...

Muito boa essa.
É para não esquecermos de que temos dois ouvidos e uma boca !
Abraço

Andrea Guim disse...

Olá!
Vim agradecer por acompanhar o Blog'Arte, e conhecer seu blog! Adorei a proposta!!! Adoro contos, fábulas, histórias!!! Seu blog é rico em um tesouro imaterial fantástico!!! Parabéns!!!
Beijins!

REGINA GOULART SANTOS disse...

Essa história, vem sendo contada por muitas gerações. Mas precisei passar por aqui para saber mais detalhes.
Beijos